Eu acho essa nossa dinâmica de estar longe tão preciosa que tenho um pouco de medo de morar na mesma cidade que você, eu sempre tive a sensação que só entendia a minha vida, que só se transformava em alguma coisa parecida com uma narrativa, quando eu contava pra alguém e todo mundo ou é burro demais pra entender ou está envolvido demais nas histórias pra eu poder contar com todos os detalhes sem criar mais problemas ainda pra vida.

É tão assustador quando você fala que isso tudo aconteceu em quatro anos, parecem tantas vidas. Esses dias encontrei com um amigo que voltou pra cidade faz pouco tempo e ele me perguntou o que eu tinha feito e eu não soube responder. Eu vivi muito voltado pra dentro, às vezes me assombra não ter nada pra mostrar (tirando os amigos que eu fiz, as coisas que aprendi). Mas tudo bem também, sempre tive preguiça de competir. Eu tô cortando os laços com essa cidade aos poucos, mas sem mágoas, só não acho que seja saudável morar tanto tempo em qualquer lugar.

Você foi uma das poucas pessoas que mesmo com tantos hiatos sempre teve uma noção de como eu estava existindo, né? Eu acho que nunca consegui organizar isso na minha cabeça na época, mas agora eu sei que nos últimos anos quase tudo que fiz foi um esforço pra apagar tudo que eu tinha de único e meu, acho que eu precisava de um feriado depois da sequência de mulheres complicadas que foram meus vinte anos. De alguma maneira pareceu que a única saída era virar um grey man, virar paisagem, não emitir muita opinião sobre o mundo, evitar qualquer impacto. Só assim eu nunca mais ia atrair esse tipo de confusão. Tentei viver uma vida de sábio ermitão, escrever jornalisticamente e sem tesão nenhuma, não contaminar meu trabalho com a minha personalidade. Não tive os resultados esperados mas foi bem merda mesmo assim.

Primeiro que depois que as pessoas te conhecem elas continuam agregando histórias pra sua mitologia, me contam tantas coisas que eu fiz que eu não faço ideia em que contexto poderia ter sido possível que eu até cansei de tentar refutar. Eu acho que eu viveria bem mais em paz se eu fosse tão filho da puta quanto querem. Mas print the legend, né? Nunca gostei muito de esclarecer minha vida. Se você precisa perguntar provavelmente não merece saber.
Segundo que eu não sei viver assim, não sei ser isento. Não dá pra se retirar da vida, não existe essa opção. Você continua vivendo, só que continua vivendo uma vida meio bosta, levado pelos planos dos outros. Eu sempre fico orgulhoso de te ver vivendo, tem muitos momentos que qualquer outra pessoa sossegaria um pouco pra colher uns frutos e você já tá evoluindo de novo, crescendo pra todo lado, por dentro e por fora. Eu não sei mais o que quero estudar (acho que já briguei com essa sua amiga no dia que ela defendeu o mala do Paul), tem dia que eu acho que poderia viver na Academia e tem dia que eu acho que é só o esquema de pirâmide mais antigo do mundo. Mas seu curso eu faço porque eu te ouviria falando sobre qualquer coisa do mundo.

A gente não leu nada junto mas até que eu li muita coisa que não dava pra escapar da sua presença. Só o Miller já valeu qualquer não-leitura, cada página que eu lia eu ficava com vergonha de estar vivendo tão sem paixão, com tanta segurança. Mas cada dia que passa eu sinto que tô reconquistando esses meus lados, abraçando minha sombra de novo, deixando uma personalidade alimentar a outra, ficando menos preso no eu que os outros queriam e focando no que eu sei ser, com tudo de bom e ruim que isso atrai (pelo menos eu vou voltar a ter o que escrever, né?). Mas voltando, eu acho que pode ser o Clube sim, eu tô lendo O Romance Iluminado mas tá me assombrando demais, vai ser bom dar uma pausa.
Voltando ao assunto do medo, que acaba encaixando no da fotografia e tudo mais, esses dias eu não tô conseguindo pensar muito em outra coisa que não seja a morte do Bourdain. Ele foi uma descoberta tão maravilhosa pra mim em tantas maneiras. Eu sempre lembro de um pôster do sonic youth que tinha escrito “thank you sonic youth, you made it ok to _________” porque acho que nada define melhor todas as pessoas que eu amo no mundo. É essa sensibilidade punk de expandir os horizontes de seja lá o que tá fazendo (o que você faz todo dia e eu acho lindo). Enfim, eu invejo demais o quanto ele foi aberto pra aventura e vulnerável pra conhecer os outros, ouvir a história dos outros mas preciso ser menos ansioso pra isso. Eu quase nunca fotografei ninguém que eu gosto (desculpa todo mundo que eu já prometi, inclusive), fotografo praticamente só coisas inanimadas porque morro de medo de tomar o tempo e a energia de alguém e as fotos não ficarem perfeitas (e não vão, né, nunca vão e racionalmente eu sei que isso é ok). Mas tenho trabalhado isso e te fotografo quando você quiser (acho que também nunca rolou de estar junto com você e com a câmera). Eu quero conhecer quase todos os lugares do mundo, mas a África tem um lugar especial no meu coração, acho que falta muito da África no mundo e isso explica muito da merda que a gente tá.

Mas enfim, eu acho que já escrevi demais pra uma primeira carta (e tô com a sensação que me expliquei muito mal, mas a gente vive com isso). Acho que tenho escrito tanta coisa impessoal na faculdade que acumulou muita coisa que eu realmente precisava/queria escrever. Preciso de algum outro lugar pra escrever também pra não te soterrar com esses monólogos, mas não vou prometer pela milésima vez criar um blog (mas logo logo vai, você vai ver…)

beijos <3

3 thoughts on “…i didn’t have time to write a short letter, so i wrote a long one instead.

  1. Eu sei que trocar cartas é uma coisa de vocês e não nossa, mas porque está aqui -pra quem quiser ler- me dei o direito de me intrometer.
    Conheço a sensação de ter ser explicado mal, mas preciso te dizer, acredito que é só uma sensação, porque eu sinto que te entendi, pra mim foi tudo muito claro. Mas acho que não é claro pra todo mundo, acho que é uma questão de idioma e seja qual for a língua desse tipo de monólogo livre e da alma eu acho que eu falo também. Você acabou de made it okay to falar essa língua, de derramar em palavras, mas você escreveu pra ela, pra alguém específico que te responde de volta, até agora eu só falava torcendo pra alguém me achar, me ouvir, me entender e com sorte me responder. Mas de novo, a coisa da narrativa, pra mim escrever é fazer sentido das coisas (fazer as coisas fazerem sentido).
    Sobre a fotografia e o medo de fotografar, I feel you! Minha predileção por fotografar qualquer coisa que não peça para ver como a foto ficou, que não vai achar que o retrato engodou, emagreceu, não ficou como o esperado e que vai me esperar até eu acertar a foto que eu quero. Prédios, objetos paisagens, elas ficam lá estáticas (bom, a luz nunca é a duas vezes a mesma, então as static as it can get), elas me deixam tentar outra abertura de lente, outro enquadramento, outro ângulo; elas me deixam mais perto da foto idealizada, a que eu queria quando vi a cena, o objeto o lugar. Claro, a foto perfeita eu não fiz, acho que nem nunca vou fazer, mas consegui algumas perfect enough e isso pra mim foi mesmo enough.
    Sobre a pressão e a expectativa dos outros, espero não ser mais uma pessoa te pilhando, mais uma pessoa que pensa te conhecer. O que eu conheço é a minha interpretação desse post (que chegou pra mim como post e não como carta). Mas espero que você me deixe compartilhar com você essa identificação toda, esse fragmento que deu pra eu conhecer (ou interpretar). Talvez até conhecer mesmo, de um jeito diferente (e não necessariamente mais raso) do quem te conhece, só no raso, só na rotina, só no texto da obrigação mas que desconhece como você tem existido.
    A minha maior crítica, a pessoa com mais expectativas sobre mim sou eu mesma; eu acho que deveria um mundo de coisas, dentre elas ler mais (ler alguma coisa, terminar um livro). Ser mais culta. Agora de onde veio essa minha ideia do que é ser culta? Que ideia boba querer ler pra parecer alguma coisa, não seria? Será que dá pra ter vergonha de não ler? Ainda acho que dá, e sinto e tenho. Falei disso tudo pra falar que não tenha ideia quem seja/quais sejam aqueles que você citou, e já me sinto logo numa obrigação descabida de saber. (Sabe quando a gente sabe mas não sente??)
    De qualquer forma, por teimosia (e depois de meses com o livreto fechado no quarto) li “um homem célebre”, do Joaquim Maria M. de Assis, o célebre homem do conto me pareceu ter por sua música o que você teve (ou tem) com sua escrita. Se não se importar, me conta se você também achou isso?

    Um abraço

  2. eu ainda não li esse conto, prometo que vou ler e te respondo com mais propriedade. Mas o que posso falar é que não existe esse negócio de leitura obrigatória, de ter que terminar os livros… o mundo quer que a gente tenha uma relação muito utilitária com tudo, nada pode ser desperdiçado. Eu me torturava muito por largar livros no meio ou por terminar alguns e mesmo AMANDO não lembrar de muitos detalhes. Até o dia que vi uma masterclass do Herzog e ele ensinou uma técnica de ler\ouvir certas coisas antes de filmar pra se colocar no espaço mental que ele precisa. Eu sempre intuí um pouco isso mas depois que ele falou eu passei a aplicar deliberadamente: eu leio pra criar outras coisas, não pra ser uma wikipedia em mesa de bar (apesar da minha memória ser bizarramente específica pra algumas coisas). Falei tudo isso mas só queria mesmo dizer que não tem porque se preocupar com isso, as coisas vão te encontrar na hora e se você não estiver receptiva pra elas vão reaparecer se forem realmente interessantes pra você.

    (e eu realmente não esperava comentários tão cuidadosos logo no primeiro post, mas amei. pode ficar a vontade. abraço 🙂 )

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