eu estou enrolando pra escrever porque eu só queria dar notícia boa porque tem um monte de notícia boa. Eu estou perto dos meus amigos e a gente tem criado coisas novas e bonitas todo dia e todo dia eu acordo feliz por ter a sorte de poder estar inventando alguma coisa com pessoas que eu amo e confio E tem o mar, eu fico bem feliz perto do mar (e você que é de Leopoldina deve saber o quanto nunca deixa de ser mágico pra gente desses lugares de ar morno e parado estar num lugar que o vento é uma constante). Mas enfim, até o rádio tem acertado e tocado tanta coisa que eu gosto ou só fico feliz por poder cantar junto com todo mundo (mesmo as canções que não são “minhas”).

Mas eu não consigo escrever se não escrevo o que sinto que devo, e eu acho que preciso falar um pouco sobre isso. Eu tento não ser prisioneiro de datas, mas semana passada fizeram seis meses que minha irmã morreu. E hoje seria o aniversário dela (dia 24, imagino que não deve ter sido nada fácil pros meus pais criar dois leoninos). Não parece ser uma coisa que se resolva, né? A morte pra mim foi sempre quase uma abstração. Acho que por isso que não consigo usar esses eufemismos: faleceu, partiu, nos deixou. Acho que a única palavra que equivale ao peso é essa mesmo. E é duplamente estranho porque eu consegui falar no momento com pouquíssimas pessoas, parecia que se não espalhasse a notícia tinha mais chance de alguma reversão mágica… aí depois eu só fiquei sem graça de não ter contado mesmo, com medo das pessoas que não contei se acharem menos importantes na minha vida.

E é uma experiência que inevitavelmente muda a gente. Por mais que a gente racionalize que provavelmente foi melhor que as outras opções possíveis no momento. Que eu tenha certeza que todo mundo fez tudo o que podia. Que dos últimos dias lúcidos a gente só tenha boas lembranças. Que nos últimos meses/anos, mesmo com vidas e mundos e escolhas completamente diferentes a gente tenha encontrado um certo equilíbrio, eu ainda quase todo dia sou acertado por alguma conclusão que eu não sei muito bem onde colocar\o que fazer. Talvez seja só isso mesmo, tentar transformar em alguma coisa com sentido as coisas sem sentido que a vida te joga. Não sei o que significa saber que eu vou ficar mais velho que minha irmã mais velha. Não sei o que significa de repente ser filho único, ser o que sobrou.

Eu sempre estive confortável com a ideia de poder amar a minha família mas nem sempre estar fisicamente por perto, minha personalidade sempre foi mais voltada pra solidão. Mas sempre soube que minha irmã estava lá por perto, nunca tive que pensar muito na solidão que os meus pais poderiam sentir, e agora esse é um pensamento constante. Mas eles têm sido maduros e resilientes de um jeito que eu não consigo sentir nada que não seja orgulho (mesmo tendo perspectivas divergentes sobre isso tudo).

Mas eu também não estou exatamente triste. Quando o dia começou a ficar difícil eu saí pra andar e pensar na vida. E continua sendo difícil, mas lembrei de algumas conversas que a gente teve, de nunca mais ter aquela felicidade boba e inocente, mas que existe uma felicidade possível, uma felicidade esclarecida. Até no como você falou na última carta, saber que não é pra ser feliz o tempo todo, que não tem porque forçar essa barra. Viver essa contradição de ter muita coisa boa acontecendo e ao mesmo tempo lidar com esse abismo. Eu acho que sou bom em lidar com contradições. Mas não se preocupe comigo, eu estou bem, estou entusiasmado, tenho uma porção de coisas novas e bonitas pro futuro. Uns dias são mais amargos mas o que importa é saber que os dias acabam. E que é revolucionário não desistir. Que é difícil não deixar de ser doce e por isso mesmo a gente não pode deixar de ser doce. Tem aquilo que o Dylan provavelmente roubou de alguém, de ser gentil com todo mundo porque você nunca sabe as batalhas que as pessoas estão lutando por dentro.

Eu sempre entendi isso racionalmente, mas perceber isso na pele muda tudo. Uns dias que você está andando pela cidade e o mundo todo funcionando perfeitamente, nem o tempo está nublado, o café na temperatura de sempre, os carros no lugar de sempre e você só quer alguma coisa pra te lembrar que existe alguma mágica possível nesse absurdo, que os dados que o universo jogam podem dar em alguma coisa boa. Mas quase sempre a gente esquece que pode ser essa coisa boa, né? Forçar a mão do destino, ajudar a viciar esses dados… Os tais atos de gentileza aleatórios e atos de beleza absurdos. Eu tenho tentado com graus variados de sucesso, vamos ver onde isso vai dar (mas o caminho até que tá gostoso).

te amo e tô cada dia com mais saudades

1 thought on “sempre um lado que pesa e outro lado que flutua.

  1. Eu fui pega completamente desprevenida pela parte que fala da sua irmã. Nada no primeiro parágrafo antecipou esse assunto… e acho que isso não poderia ser uma metáfora melhor pra vida: nada prepara a gente pra perdas assim.
    Meu irmão morreu há 6 anos e vários dos seus questionamentos fizeram eco aqui. A contradição de ficar mais velha do que o meu irmão mais velho também me perseguiu; ser a filha que sobrou ainda persegue; tentar dar sentido pra uma coisa completamente absurda e sem sentido… e também a realização de que a gente ainda consegue ser feliz, de um jeito diferente.
    Te sigo há tempos no Instagram e não consegui deixar essa carta passar batido. Sinto muito pela sua irmã.
    É lindo ver alguém ressignificar a perda e ainda acreditar em mágica e em querer dar mais de si pro mundo. Você é bom sim com contradições e essa me parece a mais bonita de todas.

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