eu acho fabuloso você ter feito cinema porque se você tivesse feito jornalismo (teria sido minha veterana por um semestre?) provavelmente só teria perdido alguns meses da vida porque você sempre foi muito mais corajosa que eu e teria largado assim que percebesse a inutilidade do curso. Eu ainda tô tentando voltar a escrever tão bem quanto eu escrevia antes da faculdade. E daqui de fora parece que você conquistou bem são paulo 😉

Eu ainda vou morar aí (espero que logo, pra falar verdade, mas não sou muito de jogar planos em voz alta), mas eu tenho essa coisa de pro bem e pro mal transformar qualquer lugar em cidade pequena, por mais que seja péssimo pra puxar assunto eu crio umas amizades silenciosas que me deixam muito feliz, tipo sorrir e acenar a cabeça pra todos os idosos da minha rua (mas sou fascinado pelas garotas que passam dois dias aqui e já sabem até o nome dos cachorros dos vizinhos mais difíceis, são uns opostos que eu sempre me apaixono). Mas eu sou fácil, qualquer lugar que o jornaleiro e o pessoal da padaria me chamem pelo nome eu já me sinto em casa.

Hoje eu tô me sentindo bem caipira e em paz, acordei assobiando wilco e agora tô ouvindo will oldham (que finalmente tem no spotify, vou te mandar uma playlist (e não tem a melhor música dele, que é a que vai tocar no meu casamento(se um dia eu casar))). Enfim, tô enrolando pra fazer minha lista de gratidão das coisas que deram errado porque talvez seja orgulhoso demais pra isso, mas sou grato de tudo que a vida me protegeu de dar certo. Se tudo desse certo e eu fosse a pessoa que eu queria ser a dez anos atrás provavelmente eu não gostaria muito de mim. E eu acho mais fácil ser grato e ter orgulho do que deu errado ativamente, das coisas que você tentou. E quase tudo que eu me arrependo foi por inação, ter ficado em situações que não me faziam crescer nem feliz nem mais sábio por comodismo, como uma rã cozinhando em fogo lento. Mas logo eu escrevo sobre isso, tô trabalhando ser mais vulnerável e aberto e gostando dos resultados.

E tem coisa que a gente não tem que ser grato mesmo não. De vez em quando a vida é bem canalha e merece ser chamada de canalha. Sei que você é simpática ao budismo, eu também gosto de bastante coisa, mas essas interpretações cheias de sacarina da classe média me dão náusea. A gente descobriu Joe Strummer cedo demais pra cair nesse papo de encarar a vida como um picolé de chuchu a ser chupado com moderação e estoicismo. Anger can be power. Tem coisa que eu quero e vou ficar puto por muito tempo e vou usar como combustível (aquilo de preferir dar um câncer que ter um câncer que a gente comentou). Me lembrou o meu poema preferido do Pessoa (do Álvaro de Campos na realidade mas tô muito velho pra achar graça nesses gimmicks) que eu comentei aquele dia que você postou o poema em linha reta:

Bicarbonato de Soda
Súbita, uma angústia…
Ah, que angústia, que náusea do estômago à alma!
Que amigos que tenho tido!
Que vazias de tudo as cidades que tenho percorrido!
Que esterco metafísico os meus propósitos todos!
Uma angústia,
Uma desconsolação da epiderme da alma,
Um deixar cair os braços ao sol-pôr do esforço…
Renego.
Renego tudo.
Renego mais do que tudo.
Renego a gládio e fim todos os Deuses e a negação deles.
Mas o que é que me falta, que o sinto faltar-me no estômago e na
circulação do sangue?
Que atordoamento vazio me esfalfa no cérebro?

Devo tomar qualquer coisa ou suicidar-me?
Não: vou existir. Arre! Vou existir.
E-xis-tir…
E–xis–tir …


Meu Deus! Que budismo me esfria no sangue!
Renunciar de portas todas abertas,
Perante a paisagem todas as paisagens,
Sem esperança, em liberdade,
Sem nexo,
Acidente da inconsequência da superfície das coisas,
Monótono mas dorminhoco,
E que brisas quando as portas e as janelas estão todas abertas!
Que verão agradável dos outros!

Dêem-me de beber, que não tenho sede!”

Voltando da interrupção: tem coisa que não dá pra ser grato mesmo e tem gente que não dá pra gostar, tava lendo um perfil ótimo do bourdain (obsessão recorrente desde o primeiro post) que ilustra isso muito bem, falando o quanto ele odiou o Kissinger depois de conhecer o Camboja:

“Olha, qualquer jornalista que tenha sido cordial com Henry Kissinger tem mais é que se foder”, disse, num tom cada vez mais indignado. “Acredito, e muito, que existem áreas morais cinzentas, mas, quando se trata desse cara, por mim ele deveria ser proibido de entrar num restaurante de Nova York.” Comentei com Bourdain que ele já havia feito denúncias peremptórias a respeito de muitas pessoas, e que depois fizera as pazes e jantara com elas.

“Emeril Lagasse não bombardeou o Camboja!”, ele respondeu.

Só quis dizer mesmo que pós-modernismo e natureza de buda têm limite e no estado que o mundo tá a gente tem que lutar e viver e sofrer os atritos necessários de estar no mundo (não que você tenha dito o contrário, eu que passei um tempo pensando que poderia ter alguma verdade na inação). E eu queria muito ter visto “a vida é feita de som e fúria”.

Apesar do tom até que eu tô feliz hoje. Acho estranha essa sensação de estar puto com quase tudo no estado do mundo, estar super ansioso (acho que é a boa ansiedade) pra ver meus planos fluirem e ainda assim estar feliz. É um negócio muito parecido com fé no futuro, parecido o suficiente pra funcionar como…

te amo e tô morrendo de saudades, a gente precisa beber e falar mal dos romances logo.

2 thoughts on “som e fúria (play it fucking loud)

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