tô quebrando um pouco o ciclo das cartas, tentando fazer um pouco daquilo que a gente sempre conversa da minha falta de iniciativa. Na realidade eu queria ter escrito no sábado de manhã, eu gosto de escrever as coisas enquanto ainda estão bem vivas na minha cabeça mas fiquei com medo de ser específico demais (e acabei só te mandando um trilhão de mensagens desconexas).

Esses dias eu vi mean streets, tinha a impressão que seria só uma nota de rodapé, uma curiosidade, mas é assustadoramente bom. E a trilha é maravilhosa, me fez até passar uns dias ouvindo Rolling Stones (e eu já lembrei de você na primeira cena porque toca be my baby das Ronettes, o que sempre melhora qualquer filme). E sei lá, surreal a tal ‘masculinidade tóxica’ ter virado assunto a tão pouco tempo, já tá tudo lá nesse filme e até em coisas bem mais velhas, mas já tô divagando… o que eu queria dizer mesmo é que as cenas de bar do filme me deixaram morrendo de saudades de ter todo mundo por perto, de estar bêbado e feliz rodeado de gente que eu gosto. E acabou que sexta que eu saí pra só tomar um moscow mule e comer alguma coisinha virou uma noite dessas. Encontrei amigos que me ensinaram mil coisas, fiz novos amigos. E é sempre tão bom aprender muito sobre você quando alguém tem o poder de unir várias peças soltas e intuições que você tinha em um negócio coeso, completo e com nome. Eu fiz um amigo leonino e é tão bom ouvir da boca de outra pessoa “como é bom ser leonino, né? que experiência maravilhosa”, porque eu andava duvidando muito disso. E a Laura também me mostrou umas coisas no meu mapa muito reveladoras (e óbvias). Eu preciso trabalhar melhor minha expressão, me comunicar melhor, deixar de ser refém dessas coisas que eu acabo deixando pra lá só por medo das palavras saírem meio tortas. E essa não comunicação é um terror, parece que eu tenho um milhão de coisas boas (e muita coisa ruim também, claro) mas essa mudez coloca tudo dentro de um saco de lixo gigante e é só o que acaba me definindo. a good mouth is a good mind etc

Você me falou que eu tenho preguiça de relacionamentos, mas é bem mais medo que preguiça… a gente vai desligando umas partes da vida quando precisa que as coisas sejam simples por instinto de sobrevivência. Aí a gente sobrevive e acaba acostumando a só sobreviver. Mas que horror é só sobreviver. E que fácil viver dentro da minha cabeça, né? Cheio de razão e cada vez mais sozinho. Eu quero viver grande (você postou sobre isso no instagram uns tempos atrás e eu achei tão bonito),  e eu criei muito medo de ser grande, mas o mundo não espera, né? Eu continuo envelhecendo e cada dia com mais consciência do pouco tempo que a gente tem e que não dá pra esperar o mundo te dar o que você deseja (por mais que, talvez daí que venha a preguiça, tantas vezes ele me deu coisas ótimas sem eu precisar agir). Mas agora eu quero agir, eu quero jogar coisas bonitas no mundo, eu quero ajudar as pessoas, eu quero sentir o atrito bom e ruim de conhecer os outros, a vulnerabilidade de tentar conhecer os outros. E eu quero estar bem com os meus amigos, eu quero mitologizar meus amigos pra caralho pro mundo inteiro e principalmente eu quero retribuir esse tanto de gente foda que surgiu e surge na minha vida e muitas vezes eu esqueço de ser grato (ou de mostrar o quanto sou grato, que ser grato só em pensamento não vale muita coisa).

Eu já fui bom nisso, preciso redescobrir essas coisas. Preciso redescobrir como eu fazia isso. Acho que o segredo é ter mais constância e mais generosidade. Por um tempo eu acreditei que só não fazer muita merda já era vantagem num mundo tão fodido. O tal ‘don’t be evil’ do google. Mas o mundo anda tão fodido que cada vez mais eu acho que a gente tem que dar um passo a mais pra fazer o bem por quem a gente ama e acredita, tomar a iniciativa, não ficar de braço cruzado esperando um pedido de socorro. Isso não é fácil pra quem tá tão distraído com o próprio umbigo, mas faz tanta diferença. Quanta gente já mudou meu dia com um simples “vi isso e lembrei de você” e eu fico aqui com esse ensimesmamento de “vi isso, lembrei de você mas sei lá se vai soar creepy eu ter lembrado de você então é melhor deixar pra lá”. Mas enfim, já tá enorme isso aqui e tô me sentindo meio Holden Caulfield: “A gente nunca devia contar nada a ninguém. Mal acaba de contar, a gente começa a sentir saudade de todo mundo”. Te amo, obrigado pela paciência infinita, por ser você e por estar por perto. O mundo é melhor e eu sou melhor com você perto.

3 thoughts on “uma espécie de saudade de todo mundo que entra na estória

  1. “Eu já fui bom nisso, preciso redescobrir essas coisas. Preciso redescobrir como eu fazia isso”

    Isso é muito eu agora. Eu sinto que cheguei aonde eu queria – o sonhado mestrado – e abri mão de tanta coisa. E não gosto, não quero, quero tudo. Quero ser mestranda e quero ser amiga louca. Quero redescobrir o mundo todo e encontrar o balanço. Essa tua carta foi como um abraço.

  2. ” Encontrei amigos que me ensinaram mil coisas, fiz novos amigos. E é sempre tão bom aprender muito sobre você quando alguém tem o poder de unir várias peças soltas e intuições que você tinha em um negócio coeso, completo e com nome” quero mais disso na vida! É mto mto bom aprender com gente assim.

  3. O terceiro parágrafo me descreve perfeitamente… fiquei tanto tempo nesse modo de sobrevivência que nem percebi que tava vivendo pela metade. Tive uma experiência esse ano que me deu um chacoalhão e me mostrou que viver pela metade não dá mais. Viver por inteiro e me mostrar por inteiro pra alguém (pelo menos por algum tempo) foi a coisa mais assustadora que eu fiz nos últimos anos, só que também foi a melhor coisa. Não dá pra ter medo de gostar, medo de demonstrar que gosta, medo de se importar e se afetar com as coisas e ainda assim viver de verdade.
    Não sei ainda como viver desse jeito que eu quero, o medo ainda paralisa as vezes, mas espero descobrir em breve.

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